Onde o corpo demora e a alma se ausenta

Desperdiçar tempo não tem a ver com repousar em silêncio ou permitir que o olhar descanse sobre o mundo. O verdadeiro desencontro acontece quando tentamos habitar dois lugares ao mesmo tempo e, no fim, não pertencemos a lugar nenhum.

Assistir a um filme enquanto a mente ensaia diálogos que talvez nunca aconteçam. Almoçar mastigando, não a comida, mas as palavras que ficaram presas em uma conversa antiga. Nessas horas, tornamo-nos versões ausentes de nós mesmos: o corpo repete gestos automáticos enquanto a consciência vagueia por futuros imaginários ou por passados que já não podem ser refeitos. É como se aqueles minutos simplesmente deixassem de existir para nós.

Há também os sinais silenciosos da intuição que, muitas vezes, escolhemos não ouvir. O aperto no peito que diz que algo não está no lugar. A sensação de que certo caminho não conduz aonde gostaríamos. Ignorar esses alertas e insistir por (teimosia) racional é desperdiçar tempo. Na maior parte das vezes, a intuição já compreendeu o que a razão ainda tenta formular.

Talvez o verdadeiro exercício esteja em recolocar a mente no mesmo lugar do corpo, devolver-nos ao instante e aceitar que é no presente que a vida acontece. Nem antes, nem depois. Como escreveu José Saramago, “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.