De astros e sonhos: A Terra girou para nos aproximar, Eugenio Montejo

Assistindo ao maravilhoso filme “21 gramas” (21 Grams, 2003), me deparei com um belo poema (acima, versão vertida para o espanhol; veja aqui a cena em inglês). Fui atrás e encontrei. Trata-se de “La tierra giró para acercarnos”, de Eugenio Montejo (1938-2008).

Como não há tradução para o português desse texto, eu mesmo fiz. Nada de literalidades. O objeto é trazer para a língua de Camões a poesia de Montejo.

A Terra girou para nos aproximar
Eugenio Montejo

A Terra girou para nos aproximar,
girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
até que finalmente nos uniu neste sonho

como foi escrito no Simpósio
Noites passaram, neves e solstícios;

O tempo passou em minutos e milênios
Uma carreta que ia para Nínive
Chegou a Nebraska.

Um galo cantava distante
Na pré-vida de nossos pais
A terra girou musicalmente
Levando-nos a bordo;
Não parou de girar um único momento,
Como si tanto amor, tanto milagre
era somente um provérbio escrito há muito tempo
entre as partituras do Simpósio.

Verbetes
Solstício – Dia do ano em que o Sol, ao meio-dia, atinge seu ponto mais baixo no céu. Tem-se o dia mais curto do ano e a noite mais longa.

Simpósio – Provavelmente, referência a “O Banquete”, título de uma obra de Platão e de outra, de Xenofonte, ambos discípulos de Sócrates, um dos maiores filósofos de todos os tempos. “O Banquete” faz parte dos Diálogos construtivos ou da maturidade. Tema? O amor.

***
La tierra giró para acercarnos
Eugenio Montejo

La tierra giró para acercarnos,
giró sobre sí misma y en nosotros,
hasta juntarnos por fin en este sueño,
como fue escrito en el Simposio.
Pasaron noches, nieves y solsticios;
pasó el tiempo en minutos y milenios.
Una carreta que iba para Nínive
llegó a Nebraska.
Un gallo cantó lejos del mundo,
en la previda a menos mil de nuestros padres.
La tierra giró musicalmente
llevándonos a bordo;
no cesó de girar un solo instante,
como si tanto amor, tanto milagro
sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito
entre las partituras del Simposio.

***

“21 gramas” (21 Grams, 2003) é da mesma dupla criativa do ótimo “Amores Brutos” (Amores perros, 2000): o diretor Alejandro González Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga. Trailers abaixo.

Atualização: 05/02/2012

Nada Mais que a Verdade: a história do jornal Notícias Populares

Recentemente, li “Nada Mais que a Verdade”, livro que narra a história do jornal Notícias Populares, periódico de maior visibilidade nesse segmento no país. O jornal era daqueles “espreme sai sangue”, e levava às últimas conseqüências a preocupação com a adequação da linguagem a seu público-alvo.

Folheando algumas páginas do livro, não há como não se divertir com algumas das manchetes do finado jornal. Há, por exemplo, inúmeras menções ao bebê-diabo (leia aqui as manchetes sobre o assunto).

O tema desperta várias interpretações, mas vou destacar o lado mais pitoresco da obra.

Outras manchetes de destaque: “Vira-lata paga água que bebeu”, “Bela moça deu a luz a um macaco”, “Mulher dá a luz a uma tartaruga”, “Vou comer 23 sapos se o Corintians ganhar”, “Mulher mais bonita do Brasil é homem”, “Médico americano quer Tancredo mais gelado”, “Papai Noel assassinado no pacotão do governo” (sobre mais um plano do Sarney), “Lula e Brizola: briga de foice pelo segundo lugar”, “Churrasco de vagina no rodízio do sexo” (essa é a mais grotesca que vi), “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada”, “Kombi era motel na escolinha do sexo” e “Milene engravidou na primeira bimbada”.

O mesmo espírito guiava as promoções. Um cartaz trazia: “O NP arranja a perua e você entra com a salsicha”. Noutro: “Fascículo e fita de vídeo é coisa de boiola. Chegou a loteria do NP”.

Eros uma vez (literatura erótica)

Muitos autores já malograram na tentativa de versar sobre sexo. Todo ano, aliás, é escolhida a pior cena de sexo publicada num livro (Bad Sex Awards). E autores renomados já levaram o “prêmio”.

Grandes sucessos não ficaram imunes às críticas. “Onze Minutos”, de Paulo Coelho, foi bastante contestado. “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, é outro exemplo.

Até os grandes nomes tem dificuldade de lidar com o tema. Receoso, Drummond só permitiu que seus poemas lascivos fossem publicados após sua morte (livro “Amor Natural”).

De toda forma, há escritores que são bastante identificados com essa temática, abordando-a de forma mais direta: Anais Nin, Henry Miller, Raduan Nassar (em especial “Copo de Cólera”), Vladimir Nabocov etc. Outros optam por uma verve mais cômica, como Hilda Hilst (“Bufólicas”) e Luís Fernando Veríssimo (“Sexo na Cabeça”). Marquês de Sade conseguiu a proeza de transitar pelas duas frentes.

Poucas mulheres citadas? Fernanda Young certa vez comentou que os homens obtêm os melhores resultados quando falam de sexo. Segundo ela, as mulheres idealizam demais o ato, e acabam esquecendo sua conotação “animalesca”.

Nem todas pensam assim, como prova a já citada Anais Nin. No Brasil, Nélida Piñon, que em “A Casa da Paixão” traz uma mulher transando com o sol, optou por novos caminhos no seu livro “Vozes do deserto”. Em entrevista ao jornal O Globo, ela afirmou que Neste livro fui mais direta, porque não podia ser de outro jeito. Nunca uso “fazer amor”. Tudo é sexo. É cópula, fornicação, o coito, o falo, a vulva. Não foi minha intenção ser pornográfica, chocar, mas eu não poderia me esquivar de descrever estas cenas.

Em “O Trágico e Outras Comédias”, Veronica Stigger opta por um caminho até mais “direto”. No conto “A Chuva”, ela escreve: “Imagina se um dia começasse a chover caralhos. Um monte de caralhos de todos os tamanhos e formas caindo do céu. Uns maiores, outros menores. Uns fininhos, outros bem grossos, parecendo toras. Caralhos grandes. Caralhos volumosos. Caralhos roxinhos. Caralhos pequenos, mas engraçadinhos, daqueles que dá vontade de chupar feito pirulito“.

Como diz Godard: “Tudo o que se mexe é pornográfico“.

Dica
No final do ano passado foi lançado o livro “100 Melhores Histórias Eróticas da Literatura Universal“, de Flávio Moreira da Costa.

Frase [O que é crônica]

“A discussão sobre aquilo que distingue o conto da crônica vale um tratado. Mas é possível dizer, de modo esquemático, que o conto descreve e qualifica uma ação, determinando seu princípio, seu fim, sua causa única, sua consequência irreversível. A crônica, ao contrário, é um instantâneo de realidade, um recorte de tempo que se confunde com outras situações similares. O conto se apropria da mecânica dos acontecimentos para transtornar nossa visão da realidade: daí o recurso frequente a enredos paradoxais que revelam, por meio de uma lógica rigorosa, a desrazão do mundo. Já a crônica nos diz que até os acontecimentos mais estranhos são exemplares de uma existência homogênea, familiar.” (MANUEL DA COSTA PINTO)

Guerrilha das letras [Bookcrossing.com]

Já ouviu falar sobre atentado poético? A página Bookcrossing.com tem por objetivo criar uma enorme biblioteca global e informal. Qualquer pessoa pode se cadastrar no site, no qual são registrados os livros soltos pelas ruas.

Cada título liberado leva um selo e quem o encontra é convidado a registrá-lo novamente no site, a fim de que se conheça sua trajetória, e depois a liberá-lo novamente, para que o volume não fique mofando na estante.

Dicionário das escritoras brasileiras

Foi lançado o ‘Dicionário Crítico das Escritoras Brasileiras’, de Nelly Novaes Coelho, que mapeia a produção das mulheres na literatura desde o século 18 e busca os contornos da imagem da mulher no mundo das letras.

São 1.400 verbetes em 752 páginas. No dicionário, também há espaço para homens que escreveram com pseudônimos de mulher. Sobre isso, a autora disse: “Nesses casos de Suzana Flag, codinome de Nelson Rodrigues (anos 40) e de Regina Alencar (anos 20) pelo poeta baiano Eduardo Faria, parece evidente que o intuito era ‘escandalizar': atribuir a uma mulher ‘confissões escabrosas’ de intimidades e sensações condenadas pela moral. Hoje já não causariam o mesmo efeito.”

A seguir, alguns verbetes do dicionário: Ana Miranda, Clarice Lispector, Patricia Melo, Suzana Flag, Lygia Fagundes Telles e Patrícia Galvão.

Violência banal: 40 anos de Laranja Mecânica

40 anos depois, Laranja Mecânica continua atual. Depois de virar filme (pelas mãos do genial Kubrick) e peça, o livro de Anthony Burgess mostrou-se premonitório em descrever uma sociedade em que a violência é banal.

O autor ganhou vários prêmios literários, escreveu 32 romances e 16 obras não fictícias. Mas é por Laranja Mecânica que ele é conhecido mundialmente. Apesar da adaptação para o cinema ser considerada um clássico, o escritor não gostou, principalmente da mudança no final.

No filme, o personagem principal se vende ao sistema enquanto no livro ele descobre que a maturidade transforma todo homem numa “laranja mecânica”. Por isso, o autor incluiu na peça escrita por ele a partir do romance uma cena em que o próprio cineasta é espancado por um grupo de rapazes.

Burgess certa vez afirmou:

“O ser humano é dotado de vontade. E pode usá-la para escolher entre o bem e o mal. Se só pode fazer o bem, ou só pode fazer o mal, é uma laranja mecânica, significa que tem aparência de um organismo adorável, com cor e suco, mas que na realidade é um brinquedo mecânico para ser manipulado por Deus ou pelo Diabo ou (que o está substituindo cada vez mais) pelo todo-poderoso Estado. É tão inumano ser totalmente bom quanto totalmente mau. O importante é a escolha moral.”