Pirataria para vender

Acima, arte interna do DVD oficial do filme Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011).

Inusitada, a imagem, que emula um DVD gravado em casa, não é a primeira iniciativa do gênero. Há dez anos, a banda System of a Down lançou o disco Steal This Album! O provocativo título igualmente apontava a tônica visual do trabalho: toda a arte do disco, e não apenas a parte interna, adotava a “estética pirata”.

Steal This Album! trazia faixas que não entraram no álbum anterior, Toxicity. Boom!, um hino anti-gerra do Iraque, fez sucesso.

suportes que pautam nosso comportamento

O século 19 produziu um largo processo de letramento. Com a alfabetização e introdução no mundo literário nas zonas urbanas mais desenvolvidas, o romance se converte no instrumento de socialização por excelência e o mesmo acontece com o cinema. Penso que, neste momento, os videogames estariam prestes a assumir esse posto. Existem a internet e todas as novas tecnologias, mas, de todas, a mais capaz de incorporar a condição emocional e socializante da narrativa é o videogame.

Josep Català, teórico conhecido por seus estudos visuais. É autor do livro A Forma do Real.

Sexo sem vergonha

[…] não sei (ninguém sabe) disciplinar o desejo sexual; só posso […] tentar disciplinar a culpa e a vergonha que azucrinam sua vida e estragam seus prazeres.
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[…] a associação de sexo com vergonha e culpa é um bordão cultural muito antigo, no qual somos convidados a acreditar por todo tipo de poder. A exigência de domesticar o desejo sexual parece ser, aos olhos de todos, um pré-requisito básico de qualquer ordem social.
Além disso, há a eterna inveja dos reprimidos: como dizia Alfred Kinsey, em regra, os que consideramos doentes e maníacos sexuais são apenas os que praticam mais sexo do que a gente.

Contardo Calligaris, na Folha.

Esse cenário cada vez mais se diversifica. Tradicionalmente mais associado aos prazeres masculinos e distante dos holofones, as mulheres estão tornando o erotismo mainstream. Nos EUA, o ator pornô James Deen virou ídolo jovem. Depois de fazer sucesso na internet, o romance erótico Fifty shades of grey, descrito como “Crepúsculo para adultos” ou “pornô para mamães”, promete ser o próximo sucesso literário internacional. Na tv paga, o canal erótico Sexy Hot exibe sessões especiais que buscam atender também os anseios femininos. Na Quarta para Casais, o pornô surge romântico.

Essa nova abordagem igualmente chegou aos aplicativos. Geometric Porn (vídeo abaixo), do artista Luciano Foglia, é uma coleção de formas geométricas que lembram órgãos sexuais. O objetivo é estimular a intimidade, de forma não explícita. A Apple não embarcou na ideia e barrou o app.

Quadrinhos digitais

Há algum tempo, a Folha soltou uma matéria sobre como a indústria de quadrinhos está adotando, cada vez mais, a distribuição digital.

Mas como a mudança na forma como as hqs são feitas e comercializadas afeta a nona arte? Esse é mais um cenário para puristas e os novidadeiros defendem com afinco suas posições.

O LA Times explorou esse tema. Há quem defenda que o acréscimo de efeitos de animação e som ameaçam a estética das hqs, além de colocar em risco a sobrevivência das lojas de quadrinhos. Outros dizem os meios digitais colaboram trazendo novos leitores, além de propiciar inovações narrativas.

Alheios a essa disputa, muitos utilizam a web também para criar comics. O Pixton é só um dos recursos disponíveis (vídeo explicativo abaixo). Já os desenhistas pouco talentosos podem optar pelo MakeBeliefsComix.com.

Mas se você prefere a versão em papel, aqui vão algumas dicas para conservar sua coleção.

Espalhe Drummond

Postais virtuais criados pela Companhia das Letras para divulgar versos de Carlos Drummond de Andrade, cuja obra está sendo reeditada pela editora. Os títulos saem, simultaneamente, em livro impresso e ebook.

Iniciativa interessante. Peca, entretanto, por não indicar a fonte ou o motivo do lançamento desses postais virtuais, informação encontrada apenas no perfil da editora no Facebook. Como o material circula, o cartão pode surgir em outros destinos sem a contextualização correta.

O final ideal para a Família Soprano

[spoiler] O criador, David Chase, após anos de contestação, encontrou o que julga ser o final ideal para a série. E a inspiração viria de outra conclusão considerada insatisfatória: Seinfeld. No episódio final do humorístico, todos vão parar na cadeia. Chase, que acredita ser difícil encerrar uma série, defende que essa resolução seria um destino mais apropriado para seu programa, que terminou com um final aberto: a família Soprano, jantando fora, no que parece ser vigiada. Para ele, as séries poderiam trocar de final.  [fim do spoiler]. Acima, um resumo das seis temporadas de The Sopranos.

O problema para mim nunca foi especificamente a cena final, mas todo o episódio. Não é uma questão de tom, mas de criatividade: soa como algo menor, desimportante. As soluções surgem apressadas. O programa já havia entregado episódios melhores, ora mais eletrizantes, ora mais dramáticos. O desfecho perde feio para episódios como College, Funhouse, Employee of the Month, Pine Barrens, Whitecaps e Long Term Parking (que finda a participação de uma das minhas personagens queridas).

De toda forma, isso não compromete o todo. Acredito que muitos depositam grande expectativa na conclusão de suas séries favoritas. Claro, há programas que criam determinada atmosfera para um tipo de final. Aí, quando surge o episódio conclusivo… Lost é um exemplo que decepcionou muitos. O que os levou a renegar toda a experiência.

(Acho mais apropriado avaliar temporadas, não a série completa. Ainda em programas que desenvolvem uma trama por temporada. A segunda de Justifield e a terceira de Damages são inesquecíveis).

Mesmo nesse caso, pode ser um equívoco esperar respostas específicas. Lost optou por um final mais poético, mesmo que sua trajetória tenha sido uma mistura de ciência com misticismo. Apesar de ser distinto ao que esperava, foi um boa resolução? Embora não alcance a qualidade do belo final de Six Feet Under, foi uma saída inventiva. Outros programas nem ligam para sua conclusão. Deadwood é um exemplo.

Ademais, ao esperar um final eletrizante, cheio de reviravoltas e surpresas, no qual todas as questões são resolvidas, o todo perde importância. Pode até ter sido conduzido precariamente. Se é necessário esperar pelo final, o desenvolvimento serviu apenas para fisgar/segurar a audiência, adotando truques como “quem matou Odete Roitman”.

Claro, há gêneros narrativos, como suspense, que pedem uma conclusão surpreendente, ou pelo menos interessante. Não estou pregando que o enredo seja algo menor. Apenas defendo que os momentos finais de uma obra não sejam a única parte importante.

O cineasta François Truffaut já defendeu que cinema norte-americano é focado na trama. O europeu, nos personagens. É por isso que, em Hollywood, muitos filmes têm ritmo alucinante. A ação é o que importa. Por outro lado, muitos acusam que não acontece nada nos filmes do velho continente.

Hoje, é comum falar que a tv produz grandes obras. O programa A Escuta (The Wire) é considerado um “romance visual”. Embora não goste desse tipo de abordagem (apontar referências em artes consideradas nobres para legitimar o novo), é inegável que o melhor da tv se mistura com preceitos de outros meios: é cada vez mais comum encontrar narrativas mais lentas, personagens multifacetados, atenção especial ao texto… Se essa simbiose ocorre, é natural puxar da literatura outra característica: muitas vezes a forma como se narra uma história é mais importante que a trama em si.

Do contrário, é como assistir novela mirando o capítulo final, que apresenta os desfechos das intigras, vinganças contretizadas e para saber quem vai ficar com quem. O argentino Diego Guebel, diretor-geral de conteúdo da Band, não aprecia folhetins justamente por isso: “Não me interesso por programas que aprisionam o público por dias, em que nada acontece. É hipnose.”

Don Drapper, de Mad Men, já disse: “meus piores medos surgem da antecipação”. Por isso, embora o capítulo final seja sedutor, importa mais a jornada até ali. O jornalista Álvaro Pereira Jr resumiu a questão.:

Se é para sofrer, a gente topa. Mas tem de haver uma troca, um pote de ouro no final desse caminho tortuoso. Ou pote nenhum -mas aí é preciso que o percurso, ainda que difícil, apresente beleza e originalidade.

 

Fontes de inspiração

“[…] Com o apogeu dos vestibulares, os livros se tornaram resumos. Com o declínio dos vestibulares, eles viraram sentenças. Não havia limites para a retração. Grandes e imensas obras foram se transformando em quadrinhos, trechos e frases, publicados em blogs e perfis do Twitter do Facebook.
[…] Ler ganhou a solenidade de estudo. Difícil, demorado. As redes sociais e os aplicativos passaram a converter autores em gurus. A moda é extrair trechos de caudalosas narrativas para bombarem na internet. Hoje, uma frase irônica é deslocada do seu contexto, a ponto de parecer um elogio. Pensamentos provisórios recebem ares definitivos de epitáfios. Romancistas como Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Ernest Hemingway viram dublês dos fãs e são condenados a uma condição secundária de frasistas.
[…] Uma descrição de apoio, sem nenhuma relevância fora da trama, é emoldurada pelo bronze das aspas.
Banalidades têm contornos de iluminação profética. […] Um pouco mais, teremos a autoria de vírgulas e travessões.
Inspirado pela Wikipédia, o leitor tomou a iniciativa de editar sua biblioteca e alimentar a intensa e tumultuada convivência digital com máximas edificantes (não importam os meios). O gosto pela frase de efeito vem resultando na produção em série de frases de defeito, pondera o crítico Antonio Carlos Secchin.

A Revista da Cultura também olhou para a prática online de citar, de forma correta ou não, trechos de obras e pensamentos de escritores. O assunto não é novo. E a maioria das abordagens trazem uma leitura negativa. Mas o texto de Fabrício Carpinejar, cujo programa de tv estreou na terça, faz toda a diferença.

Como citar tuitadas em trabalhos acadêmicos?

Quem orienta é a MLA (The Modern Language Association). E no Brasil, como fazer menção/dar crédito a mensagens publicadas no serviço de mensagens curtas? Recomenda-se seguir as mesmas regras de citação de um documento em meio eletrônico.

Aliás, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), responsável pela orientação de referência bibliográfica por aqui, está no Twitter:  @abntoficial.

Curiosamente, a mais recente tática para monetizar o Twitter é vender mensagens do arquivo do serviço.